Superfinal: Os filhos do pai

Responsável pela construção da primeira moto de Jorge Lorenzo, ‘Chicho' pode se orgulhar de seu papel de pai-professor. Além de formar um filho vitorioso, ganhou credibilidade o bastante para tocar um projeto de desenvolvimento de novos talentos

JULIANA TESSER e EVELYN GUIMARÃES, de Termas de Río Hondo
 
José Manuel Lorenzo circula pelo paddock da MotoGP quase anônimo, mas a aparência não o permite esconder sua verdadeira identidade. Pai de Jorge, Chicho, como é conhecido por todos, está diretamente relacionado aos quatro títulos conquistados pelo filho mais velho no Mundial de Motovelocidade.

Apaixonado por motociclismo, Chicho construiu com as próprias mãos a primeira moto do agora tetracampeão e foi também o responsável por atrair o interesse de Dani Amatriain, empresário que guiou os passos de Jorge até a assinatura do primeiro contrato do piloto de Palma de Mallorca com a Yamaha para estrear na MotoGP.

Mais do que pai, Chicho também foi professor de Jorge, ensinando ao filho um método de trabalho que ainda hoje é seguido pelo companheiro de Valentino Rossi.

A proximidade dos dois, entretanto, acabou resultando em uma relação conflituosa, e não foram poucas às vezes em que os dois se desentenderam publicamente. Embora a frase seja um clichê completo, o amor acabou falando mais alto e a relação de pai e filho foi reestabelecida. Em novas bases, desta vez.

Acompanhando o filho em praticamente todas as etapas da MotoGP, Chicho esteve em Termas de Río Hondo para assistir ao GP da Argentina. No familiar ambiente da MotoGP, José Manuel não adota a postura ‘pai de estrela’ e gosta de se misturar aos jornalistas no centro de imprensa — tal qual Julià Márquez, pai de Marc e Álex Márquez, que também circula pelo espaço dos jornalistas distribuindo sorrisos por onde passa. Ao contrário do patriarca da família que chegou à elite do motociclismo no ano passado, Chicho parece mais sério, uma impressão que se desfaz completamente nos primeiros minutos de uma conversa. Na sala de imprensa de Termas de Río Hondo, foi Chicho quem abordou a reportagem da REVISTA WARM UP.

Pouco antes da largada da prova da Moto3, Lorenzo indagou as jornalistas sobre suas origens e publicação, e logo tratou de se apresentar: “Soy el padre de Jorge Lorenzo”. Uma fala rápida, um pouco tímida, mas que não escondia o orgulho do filho campeão.

Falando de Jorge com um misto de carinho e admiração, José Manuel também tem a mesma empolgação ao falar de seus projetos pessoais, onde passa adiante os ensinamentos que deu ao filho – desta vez, em maior escala.

Com tempo para jogar conversa fora, Chicho deu suas visões do esporte, falou da relação com o bicampeão da MotoGP, do difícil papel de pai frente ao perigo inerente do esporte e até brincou quando as repórteres destacaram sua semelhança com Jorge. Além das feições, ouvir o pai falando é quase como ouvir o filho. “Menos mal”, diz, rindo. “Se não eu estaria preocupado”, continua.

Indagado se a personalidade de pai e filho também é semelhante, Chicho resume: “Há uma diferença de 28 anos. Nada mais”.

Apaixonado por motociclismo, José Manuel desenvolveu um método próprio, uma forma mais abrangente de entender a modalidade, “copiando outros esportes”. “Aqui não há escolas, não há professores, não há livros...”, justifica, ressaltando que não mira nenhum atleta em especial. “Sempre há esportistas sensacionais, que fazem coisas admiráveis.”

No entender de Chicho, identificar o talento de um jovem piloto não é uma tarefa das mais difíceis. “Isso é muito fácil de ver”, garante. “Às vezes, vêm os pais com filhos de dois anos e já vemos se tem talento. O talento tem alguns sintomas, não precisa nem subir na moto”, defende. “Se um menino de dois anos fica nervoso perto da moto, começa a puxar o pai, quer subir na moto, fica louco, esse menino tem talento. Se você chega com o garoto, ele está olhando para outro lugar e não tem nenhum interesse na moto, não adianta”, explica.

Jorge era assim. “Ele via as corridas na televisão antes de ver desenhos animados. Preferia ver as corridas de moto. Esse é um sintoma muito geral dos meninos.”
Tetracampeão, Jorge Lorenzo foi o primeiro a provar o método de ensino de Chicho (Foto: Yamaha)
A pouca idade com que os pilotos chegam ao Mundial de Motovelocidade exige um amadurecimento mais rápido, até pela presença de profissionais mais velhos e experientes.

“Ele entrou no Mundial com 15 anos. Com 14 anos. Sempre esteve rodeado de gente muito boa em suas profissões, engenheiros, técnicos. Claro, isso também faz com que os pilotos amadureçam”, reflete Chicho. “Se está rodeado de garotos da sua idade... festa...”

Agora, com o filho já formado para a elite do motociclismo, José Manuel decidiu passar seus conhecimentos adiante e abriu escolas de formação na Espanha. Com o projeto consolidado em sua terra natal, Chicho agora leva a iniciativa para o continente americano. “No México, nós já temos um Centro de Alto Rendimento”, conta. É como uma universidade de motovelocidade. “A ideia é esta, trabalhar com pilotos que queiram dar o salto aos Mundiais. Ao Campeonato do Mundo”.

A preparação dos alunos, porém, não é feita unicamente na pista. “Ao contrário de todo mundo. Todo mundo faz 100% aqui [na pista] e não faz nada fora. Esta é a diferença, por isso que a Espanha é uma potência. Nós fazemos o trabalho aqui — 90% — e também fazemos fora — 10%”, aponta.

Com escolas longe de sua casa na Espanha, Lorenzo acompanha os alunos por meio de informes. “Temos uma página no Facebook onde mandam vídeos, mandam informes. Eu vejo o vídeo, corrijo, lhes envio as correções, dou o objetivo para o próximo vídeo e eles trabalham com este objetivo e com as correções”, relata. “E também me enviam informes. Eles vão para uma corrida e me informam sobre como foi todo o trabalho. E também nos treinamentos. Tenho uma equipe de pessoas. No México nós temos dois monitores. Na Espanha, em cada escola há um diretor. Na Espanha são nove escolas”, fala.

Perguntado sobre quanto deste esporte é talento e quanto é trabalho, Chicho avalia que “existem pilotos com muito talento que trabalham pouco e existem pilotos com pouco talento que trabalham muito”. “E estão em níveis iguais”, diz. “Quando o piloto tem talento e trabalha muito, temos Márquez, Jorge Lorenzo, [Dani] Pedrosa.”

Primeiro aluno formado pelo método do pai, Jorge também se envolve nas atividades do Centro de Formação. “Os alunos que mais trabalham podem ir à Suíça treinar com o meu filho. Nós tivemos um aluno de Los Angeles que foi. Esse é um menino que nós apresentamos a Carmelo Ezpeleta [CEO da Dorna, empresa que organiza e promove a MotoGP], em Austin, para ver se ele já pode correr no Mundial no ano que vem. Benito Solis”, apresenta. “Benny depois esteve na Suíça com o meu filho, esteve treinando com ele.”

Questionado se o piloto da Yamaha é um bom professor, José Manuel garante que sim. “É, porque ele aprendeu com um método. A maioria dos pilotos aprende dando voltas e geralmente não sabe o que faz em cima da moto. Não tem consciência. Quando você aprende com um método, trabalhando os detalhes, você cria consciência”, defende. “A possibilidade de um piloto poder treinar com um campeão, comparar-se com ele, na mesma moto, no mesmo exercício, é algo muito valioso para um piloto”, exalta.

Até yoga tem no esquema “para que o piloto aprenda a respirar e ter autocontrole”. “O programa é gratuito. Tudo o que fazemos, nós procuramos que tenha um custo muito baixo ou que seja grátis”, frisa.

Esse trabalho de formação, por outro lado, não dá frutos de uma hora para outra. “Formar um piloto é um trabalho de dez anos. E é preciso passar por esses dez anos. Sim, começar desde pequeno, com uma boa formação. Se não tem uma boa formação, como há em outros países, os outros países vão te engolir”, alerta. “O talento é algo a mais. Pode facilitar as coisas, mas são os rivais os que te dão o nível. Se o nível é baixo, seu nível será baixo.”

Acostumado a lidar com jovens, Chicho também tem planos audaciosos para as meninas que se interessam pelo esporte. O espanhol não acredita em um campeonato unissex. Defende, sim, a criação de um Mundial de Motovelocidade feminino.

“Se pudessem competir [com homens], já teria havido campeãs femininas. E nunca houve”, avalia. “Se em todos os esportes existem categorias femininas, por que aqui não? Se alguma quer seguir competindo com os meninos, que compita com os meninos. Não há nenhum problema que uma equipe de futebol contrate uma mulher, mas a que quer jogar em uma equipe feminina tampouco tem problema. Só estamos tentando fazer com que haja um Mundial feminino.”

Defendendo sua ideia, Chicho deu a largada para um projeto ambicioso no México: a Pulsar Femenil Cup, o primeiro campeonato monomarca feminino do esporte. Realizado pela primeira vez no ano passado, o certame contou com 35 meninas, em sua maioria do México, mas também vindas de Colômbia, Estados Unidos e Espanha.

O país da América do Norte, aliás, é a casa de um projeto maior, o Pulsar American Cup, um programa esportivo que tem como objetivo descobrir talentos no continente americano, auxiliar na formação de jovens e na profissionalização desses pilotos, e segue o modelo consagrado com, entre outras, a Copa Movistar, a Copa Aprilia e a Copa Derbi, que ajudaram a formar pilotos como Casey Stoner, Álvaro Bautista, Pedrosa e Lorenzo.

Com o objetivo de transformar o México em uma referência na formação de pilotos, Chicho também trabalha para realizar o Campeonato Pan-Americano Feminino, previsto para acontecer ainda neste ano. A competição, que será gratuita ou com o menor custo possível, tenta reunir meninas dos mais diversos países da América.

Durante o encontro com a reportagem da RWUp, Chicho pediu às jornalistas indicações de jovens pilotas brasileiras, que foram prontamente procuradas pelo espanhol para participar do evento mexicano.

“Eu creio que neste esporte, as mulheres têm de ter a possibilidade de competir entre elas, como têm no futebol, na natação, em todos os esportes. No motocross, no Trial. Por que aqui não? É a metade da população mundial”, conclui.
Primeira edição da Pulsar Feminil Cup aconteceu em 2013 e reuniu 35 meninas (Foto: Divulgação)

Sempre presente

Embora muitos pilotos viajem acompanhados dos familiares, existem aqueles que não gostam da companhia paterna nos finais de semana. Recentemente, o novato da McLaren na F1 Kevin Magnussen admitiu que a presença da família o deixa “distraído”.

“Não se pode generalizar. Cada piloto é diferente. Tem uns que necessitam do apoio da família e outros que quanto mais longe esteja a família, melhor”, comenta Chicho. “Depende um pouco do caráter do piloto e de suas necessidades ou de sua maneira de sentir-se cômodo.”

O pai de Jorge procura estar presente em todas as corridas, mas, depois de muitos conflitos com o filho, guarda para si os comentários.

“Eu não digo nada. Se ele me pergunta, eu dou a minha opinião. Se não pergunta, não digo nada. Não quero entrar em conflitos com ele. Já tivemos muitos conflitos”, reconheceu.

Além das brigas, José Manuel vê as lesões do filho como a parte mais difícil de sua função de pai de piloto. “Isso é o pior das corridas. Eu estou sempre nervoso. Inclusive, quando ele cai e se levanta, é um alívio. Acabou o problema”, e sorri.

Chicho lembra os acidentes sofridos por Jorge, mas não escolhe como pior momento nenhuma das quedas da acidentada temporada de 2008.

“Quando tinha 14 anos, que ia entrar no Mundial, teve uma queda muito forte. A ambulância entrou na pista, o que era uma coisa muito estranha, pois foi em Montmeló e lá têm pistas auxiliares”, lembra. “Pararam tudo e a ambulância entrou na pista. Foi um momento muito... quebrou a clavícula, o punho...”

Questionado pela RWUp se já chegou a pensar em pedir ao filho que deixasse o esporte, Chicho não titubeia: “Eu, sim; ele, não. E também quando perdeu um pedaço do dedo. Na Austrália, a moto caiu em cima e cortou um pedaço do dedo dele.”

Outra lesão marcante na carreira de Jorge aconteceu no ano passado, quando o piloto da Yamaha caiu no primeiro dia de treinos livres para o GP da Holanda e fraturou a clavícula esquerda. Operado na Espanha, Lorenzo retornou para Assen e, 30 horas após a cirurgia, entrou na pista para receber a bandeirada na quinta colocação.

“Foi muito sofrido”, lembra o pai. “Se havia uma possibilidade de correr, sabia que ele ia correr. Não é fácil, pois te operam a clavícula e chega o médico te faz fazer 15 flexões”, segue, citando o procedimento necessário para que o piloto obtivesse a liberação necessária para poder largar.

“E ele estava fazendo flexões na mesma noite, não?”, pergunta a reportagem. “Sim, é forte”, responde o pai, que não acompanhava o filho na etapa holandesa. “Eu estava indo para o México nesse momento. Estava em Madri para decolar e me ligaram para dar a notícia.”

Esta, no entanto, não foi uma das vezes em que o tetracampeão do Mundial de Motovelocidade consultou a opinião do pai. “Os pilotos normalmente tem um caráter muito forte”, pondera.