Stop & Go: Gil de Ferran

“Tenho certeza de que não é todo mundo que vai gostar. Mas tenho certeza de que muita gente vai olhar e falar: ‘Pô, isso é interessante’. É uma novidade, é diferente”

RENAN DO COUTO, de São Paulo
A notícia de que Gil de Ferran participaria do primeiro teste coletivo da F-E, em Donington Park, foi recebida com alguma surpresa. Aposentado da carreira de piloto, o bicampeão da Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis não pretende voltar a competir, mas queria experimentar o carro da categoria que diversas vezes definiu como “interessante” ao conversar com a reportagem da REVISTA WARM UP. Embaixador da categoria, De Ferran classificou como “ótimo” o primeiro passo dado pela organização para estabelecer um campeonato inovador no meio do automobilismo, do desenvolvimento do bólido à escolha das cidades onde correrá, e disse que sua grande curiosidade é ver como os carros e as tecnologias vão evoluir com o passar do tempo.


REVISTA WARM UP: Todo mundo ficou surpreso quando viu seu nome confirmado para o teste da F-E. Qual é a história desse teste? Por que você foi andar?

Gil de Ferran: Desde o começo do meu envolvimento com o pessoal da F-E, deixei bem claro que queria experimentar o carro. Mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. É o primeiro carro elétrico de alta performance que existe. Como eu sou um entusiasta da categoria, eu acho a iniciativa super interessante, tento ajudá-los da melhor maneira possível, queria voltar. O pessoal da equipe Andretti virou para mim e falou ‘se quiser andar no nosso carro, pode andar’. Aí falei ‘óbvio’. Foi super legal, mas infelizmente a gente teve alguns probleminhas, o que é natural, uma vez que é um carro novo, e eu só consegui dar poucas voltas. Como é um carro elétrico, você pode andar no que eles chamam de ‘qualifying mode’ e ‘race mode’, um tem muito mais potência do que o outro, mas eu só consegui andar no que tem menos potência. Mesmo assim foi, para mim, uma experiência muito interessante.

Mas você pensa em correr na categoria?

Não…

Isso chega?

Para mim, deu, já! É sempre aquela história, cada vez que você anda em um carro… Para falar a verdade, estou bem enferrujado, mas, apesar de tudo, eu até que fui competitivo. Aí você fica com coceira, né, mas para mim deu. Muito obrigado.

E como é esse seu envolvimento com a F-E?

É um envolvimento superficial. Tento ajudá-los da melhor maneira possível, seja ajudar a promover a categoria, com alguns conselhos, essas coisas. Sou um embaixador, mas não é um negócio super intenso. Procuro ajudar com o que eu posso.

Você acredita que esse é o futuro do automobilismo? Vai enveredar para o caminho dos carros elétricos?

Não, eu não acho que uma coisa exclua a outra. Se a sua pergunta é ‘a F-E vai tomar o lugar da F1? Do WEC? Da Indy? Da Nascar?’, minha resposta é acho que não. Nem essa é a intenção. Agora, existe espaço no mercado para uma categoria de carros elétricos de alta performance que faz corridas em centros de cidades famosas no mundo inteiro? É um negócio atraente? Eu acho que sim. Mas uma coisa não substitui a outra.
Gil de Ferran andou com o carro da F-E em Donington Park. (Foto: Divulgação)
O que você achou do modo como a categoria foi concebida? Foi o planejamento certo para começar?

Olha, tem muitas inovações na categoria, não só o fato de os carros serem elétricos, mas diversas inovações em como a categoria é organizada, como vão ser as corridas. Algumas dessas inovações são consequência do tipo de tecnologia que eles estão usando. Acho muito positivo o fato de a categoria andar em centros de cidades famosas, acho que isso vai ser o ambiente certo para esse tipo de competição. Tinha que começar em algum lugar, então o fato de os carros serem iguais, os motores elétricos e as baterias serem iguais, foi bom para se começar. Precisam se estabelecer e, para eles se estabelecerem, foi um ótimo primeiro passo. Foi um primeiro passo perfeito? Não, essas coisas, quando são muito novas, você vai aprendendo muito ao longo do caminho.

O que eu acho interessante sobre a F-E vai ser a evolução ao longo dos anos. Como esses carros elétricos vão evoluir, as baterias, os motores, o quão mais rápidos vão ficar, o quanto mais tempo as baterias vão durar, etc., etc. Acho isso um fator muito atraente da F-E. Primeiro ano, estão bem: tem que se estabelecerem, fazerem grandes eventos em diversas cidades. Veja bem, organizar um campeonato inteiro com corridas novas, eventos novos, carros novos, tudo novo, é um negócio complexo. Não é fácil. É passar por esse primeiro ano e ver como a coisa vai evoluir. Estou muito interessado, principalmente no aspecto tecnológico.

Essa evolução tende a ser rápida, já a partir do momento em que os carros entrarem na pista para competir, é um processo que vai demorar ou é só vendo mesmo que vai dar para saber?

Esse processo é sempre muito parecido. Quando você coloca um produto novo para fora, existe uma primeira fase que é resolver problemas! (risos) Você está vendo isso até com a F1. Essa primeira fase dos motores novos, um regulamento muito novo, muita gente está tentando só resolver pepino. São sistemas muito novos, tecnologias novas, instalações diferentes, blablablá. Na F-E, não vai ser diferente. Existe uma primeira fase dessa evolução que é resolver pepino. Quanto tempo isso vai durar? Não sei exatamente. Mas, daí para a frente, você começa a pensar em quê? O que o regulamento nos permite fazer para 2015, 2016, como a gente pode levar vantagem, o que pode ser evoluído? E aí você começa a olhar para novas tecnologias e novas coisas.

Naquela simulação de largada que foi feita, você participou?

Não, por causa do problema no carro.

Quem viu de fora o vídeo, achou a largada um pouco esquisita. O que você achou?

Na verdade, eu não vi porque estava em reunião (risos). Por que que pareceu esquisito para você?

Os carros estavam parados, em silêncio, e de repente saíram andando e parecendo um pouco lentos… Não foi uma largada como a da F1, por exemplo.

Mas veja bem: tem muitas coisas na F-E, pelo fato de os carros serem elétricos, que vão ser bem diferentes. A largada é uma delas. Quando você sai do box no carro, você engata primeira e sai andando, sem barulho nenhum. Mas uma das coisas mais interessantes desse carro é a aceleração em baixa velocidade. É instantânea. É um negócio bem interessante. Uma das características do motor elétrico é que ele tem torque máximo em velocidade zero, diferente do motor de combustão interna, que o torque máximo acontece em giros muito mais altos. Então tem muitas coisas que vão ser diferentes nesse tipo de corrida, isso por si só eu acho interessante. Umas pessoas vão gostar, outras não vão gostar. Umas vão achar interessante, outras vão fazer comparações como a que você está fazendo, ‘não faz barulho, não faz isso não faz aquilo?’ Não faz, mas faz outras coisas.

É uma questão de saber apreciar o que tem.

Tenho certeza que não é todo mundo que vai gostar. Seria muita esperança achar que todos vão achar o máximo. Mas tenho certeza que muita gente vai olhar e falar: ‘Pô, isso é interessante’. E, na verdade, veja bem, Renan, a gente está acostumado a ver carros elétricos como carrinhos de golfe, essas coisas. Hoje em dia, tem alguns carros elétricos no mercado, como o Tesla, que é um carro fantástico. Mas esse é o primeiro carro de corrida elétrico de alta performance. É uma novidade, é diferente.

Dentro do seu envolvimento com a Honda e a HPD. Há alguma relação com a F-E, pensa em construir alguma relação no futuro?

Sou consultor da divisão de corrida da Honda aqui nos Estados Unidos. No momento, nada concreto. Agora, sei lá o que o futuro guarda.

O fato de ter a Andretti andando também pode ajudar neste sentido?

Não sei. Isso daí é um pouco de especulação demais. Acho que vai depender mais de como os objetivos se alinham entre a categoria e a empresa.

E quais são os seus outros planos para os próximos meses e anos?

Olha, hoje em dia, trabalho muitos trabalhos de consultoria. Faço consultorias para projetos maiores e menores. O maior é o da Honda, aqui nos EUA, principalmente, não só na Indy, mas em outras atividades que eles têm. Na verdade, sou um consultor e um ‘enterpreneur’. Como fala em português? Esqueci. Empreendedor! É o que é a minha vida hoje em dia.