Carro-chefe: A cabeça de quem guia

Para conquistar a vitória em um GP ou erguer a taça de campeão do mundo, o piloto precisa saber lidar com uma porção de elementos psicológicos que vão da inteligência à concentração e envolvem um turbilhão de emoções

EVELYN GUIMARÃES, de Hockenheim
RENAN DO COUTO, de São Paulo
O choro inconsolável dos jogadores brasileiros nos instantes finais da partida contra o Chile na Copa do Mundo, antes mesmo das cobranças de pênaltis, e as frequentes convocações da psicóloga Regina Brandão para comparecer à Granja Comary e trabalhar a cabeça dos atletas viraram um assunto bastante discutido durante os meses de junho e julho. Que a psicologia faz parte do esporte e contribui para um desempenho mais constante dos atletas, fala-se há muito tempo, mas é difícil pensar em exemplos que tiveram tanta repercussão quanto o que aconteceu com o time de Luiz Felipe Scolari durante a Copa no Brasil.

Como o próprio técnico confidenciou em um encontro com seis jornalistas que chamou para uma conversa exclusiva nos bastidores do quartel-general da CBF em Teresópolis, os jogadores estavam sentindo a pressão de disputar a Copa em casa. A imagem do capitão Thiago Silva sentado na bola e o pedido que ele fez para cobrar o pênalti depois do goleiro Júlio César, caso fosse necessário, se tornou um símbolo do fracasso que estava por vir. E para não dizer que todo o time caiu de produção, Júlio César, cujas lágrimas escorriam pelo rosto antes do início das cobranças de pênaltis, terminou o dia como herói.

Mas o resultado da Copa das Copas para o time brasileiro, todos conhecem — e foi vergonhoso. O psicológico fraco não foi a razão da maior goleada sofrida na história pelo Brasil, os 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, em Belo Horizonte, mas, em meio a todo o processo, pode ser colocado como um fator que contribuiu para o trágico fim do sonho do hexacampeonato em 2014. O 3 a 0 da Holanda na decisão do terceiro lugar apenas fechou a tampa do caixão.

A REVISTA WARM UP não esteve alheia aos acontecimentos da Copa do Mundo — difícil encontrar algum cidadão que não esteve — e se propôs a aprofundar o debate para compreender melhor qual o impacto que a psicologia tem no esporte. E entender, principalmente, como o trabalho mental pode contribuir ou colaborar para a performance de pilotos nos mais variados níveis do automobilismo.

No mundo das duas ou das quatro rodas, onde o esporte como um todo é coletivo, apenas uma pessoa entra em ação para buscar o resultado. Um desvio emocional pode provocar erros que não têm volta e um impacto irrecuperável no desfecho da competição.

Engana-se quem pensa que é apenas uma questão de controle das emoções. No automobilismo, a psicologia trabalha pontos como a concentração, a tomada de decisão e os rápidos reflexos que um piloto precisa ter.
Antes mesmo das cobranças de pênaltis contra o Chile, jogadores brasileiros estavam descontrolados emocionalmente. (Foto: Getty Images)

A estrutura de três pontas

Profissionais especializados em psicologia esportiva colocam a ciência como fundamental para a performance em alto nível. O pensamento é que, sem a cabeça no lugar, o atleta não consegue dar o máximo de si mesmo que esteja no ápice da forma física ou que possua a mais refinada das técnicas. Os métodos para se alcançar um bom estado psicológico e as consequências do sucesso ou do fracasso nessa tarefa são diversos.

O psicólogo do esporte João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista da Psicologia do esporte, descreve a existência de três pilares. De forma esquemática, explica à RWUp que pode ser desenhado um triângulo da preparação esportiva, com a parte física de um lado, a parte técnica e tática de outro e, na base, a parte psicológica. “Não adianta ter atletas muito bem treinados tática e fisicamente se o emocional não fornecer o suporte necessário para essa separação”, relata Cozac, que atua na área há 23 anos, é membro acadêmico e doutorando pelo Laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro ‘Psicologia do Esporte: Atleta e Ser Humano em Ação’. Também já atendeu pilotos de diversas categorias do automobilismo.

A princípio, de acordo com Cozac, a importância de cada um dos aspectos mencionados é igual — um triângulo equilátero —, mas pode variar de acordo com a modalidade praticada e com a situação — em um momento decisivo ou de intensa adrenalina, o atleta pode se comportar de maneira diferente — seja executando mal um movimento do jogo ou mesmo reagindo de forma antidesportiva a um estímulo.

No caso do automobilismo, há diversas variáveis que estão relacionadas ao aspecto mental do piloto, mas as principais são a capacidade de concentração e a tomada da decisão. A primeira é a mais importante e é citada com mais frequência quando se trata do assunto.

O caso mais célebre de desconcentração de um piloto na F1 envolveu Ayrton Senna no GP de Mônaco de 1988. Liderando com praticamente 1min de vantagem para Alain Prost, deixou o carro escapar na curva Portier e terminou a corrida com a McLaren estampada no guard-rail.

Mas muitos outros fatores estão envolvidos. “É importante ter um bom relacionamento com o companheiro de equipe, os mecânicos, o chefe de equipe, a tranquilidade para sentar no cockpit com um bom relacionamento entre todos. Ter o reflexo apurado, ansiedade sob controle, energia de ativação interna que vai te levar a uma tomada de decisão e a uma correção de rota naquele momento, e tranquilidade para ficar quase duas horas dentro de um carro correndo a mais de 200 km/h também vai muito do emocional do piloto: a questão da autoconfiança, da autoestima e do autocontrole são variáveis fundamentais para o bom desempenho”, enumera Cozac.

Há, ainda, um último fator que pesa no comportamento dos pilotos dentro do carro, trazido para a discussão por Paul Castle, psicólogo do Instituto de Esporte e Ciência do Exercício da Universidade de Worcester, no Reino Unido, e autor do livro ‘Psicologia do Sucesso no Automobilismo: como melhorar sua performance com o treinamento de habilidades mentais’.

“Em vários esportes ‘rápidos’, o tempo de reação e a tomada de decisão são importantes. Interceptar uma bola de futebol americano que está no ar ou devolver um serviço de [Roger] Federer no tênis exige tempo de reação, tomada de decisão, crença e autoconfiança. O automobilismo é semelhante nestes aspectos. Contudo, o automobilismo difere no que tange às consequências dos erros. Uma devolução errada no tênis resulta na perda de pontos, ao passo que uma decisão errada no automobilismo pode resultar em lesões sérias ou até fatais”, diz Castle à RWUp.

O tricampeão Nelson Piquet costuma falar que um piloto, depois de um acidente forte, jamais volta a guiar da forma que fazia antes. Em seu caso, esse forte acidente foi no GP de San Marino de 1987, na curva Tamburello, meses antes da conquista do terceiro título mundial. É o que os psicólogos chamam de estresse pós-traumático, que não fica restrito ao automobilismo, sendo notado também em outras modalidades – exemplo quando um atleta sofre uma contusão e demora para recuperar a confiança. Ou mesmo com um cidadão comum que se envolve em acidente ou tem algum tipo de trauma.

Medo, contudo, não abrange apenas o temor por acidentes e lesões físicas. A pressão à qual estão submetidos os atletas, nos mais diferentes níveis, submete-os a outro medo, “que os americanos chamam de ‘fear of failure’ e ‘fear of success’”. De acordo com Cozac, esses medos do significado da vitória e da derrota são ainda mais comuns e mais preponderantes do que o temor pela integridade física.

Isso também está relacionado à pressão e à cobrança por resultados. É um esporte que, ao mesmo tempo, é coletivo e individual: toda a preparação é realizada por uma equipe que inclui não só o piloto, mas engenheiros, mecânicos, dirigentes, patrocinadores e outros profissionais. Só que, na hora de buscar o resultado, a pressão recai sobre os ombros de uma única pessoa, que precisa saber lidar com a situação e entregar o que se espera dela — seja no padrão de exigência do Mundial de F1, seja de uma categoria de base.

Disso tudo surgem os dramas comuns listados por Cozac. “Normalmente estão ligados ao controle da ansiedade, ao intenso desejo da vitória, e muitas vezes a frustração está relacionada a não ter o desejo da vitória atendido. Ouço relatos, das diversas categorias do automobilismo, da questão da concentração e do foco: às vezes, o piloto está em altíssimo rendimento, a parte física vai muito bem, a parte técnica está respondendo, mas a cabeça começa a dançar, e não pode, tem de responder de uma forma quase automática aos estímulos que se tem em uma pista de corrida.”

No caso dos mais jovens, tudo ainda se mistura às mudanças biológicas que são enfrentadas na adolescência. “Tem a questão do desenvolvimento, as dúvidas, as mudanças sociais, afetivas, psicológicas, hormonais e cognitivas. Tudo isso faz parte e, se não for trabalhado, acaba exercendo um impacto negativo no controle e na manutenção do alto rendimento. A psicologia do esporte, antes de ser do esporte, é psicologia”, comenta.
“Os pilotos na nova F-E estão precisando ‘reaprender’ técnicas de pilotagem, pois não conseguem ouvir o que o motor está fazendo”

Dentro do cockpit

A partir do momento que se entra no cockpit para disputar uma pole-position ou uma vitória, é essencial estabelecer um bloqueio mental e espantar quaisquer pensamentos que possam tirar a atenção e prejudicar os reflexos e a tomada de decisão. Toda a energia precisa estar canalizada para a tarefa que deverá ser cumprida nos segundos, minutos e horas seguintes.

Assim como a indústria do automobilismo faz uso da tecnologia para preparar o carro para aquele momento, a psicologia também. A técnica do biofeedback é uma das mais populares no campo para explorar o tipo de reação de cada atleta e permitir um treinamento mais preciso. Surgido no fim da década de 1960, o biofeedback tornou-se mais popular e acessível nas últimas duas décadas e é utilizado, além do automobilismo, por esportistas de outras modalidades, como o tênis e o basquete.

Enquanto o paciente é introduzido a uma realidade virtual tridimensional, sensores ligados ao seu corpo monitoram as funções psicomotoras e psicofisiológicas, como a coerência cardiorrespiratória — relação entre a quantidade de ar que é inspirada e a quantidade que é expirada — e detectam desvios e áreas que podem ser melhor trabalhadas. Desenvolve-se, em conjunto com o atleta, um método de respiração que contribui para o gerenciamento dessas funções.

“Na medida em que a quantidade de ar que o atleta inspira e expira começam a se tornar equivalentes, você tem muito mais propriedade para controlar a respiração e o fluxo respiratório, e, ao fazer isso, você tem uma mente mais tranquila, mais focada e blindada contra pensamentos intrusos, que a gente chama de pensamentos invasivos”, descreve Cozac. “O fluxo respiratório é fundamental para o controle cognitivo, o controle do pensamento mesmo.”

Simultaneamente, a boa forma do corpo também colabora para a concentração do esportista. “O preparo físico melhora o funcionamento cardiovascular, e isso leva mais sangue oxigenado aos músculos, mas, igualmente importante, leva sangue oxigenado para o cérebro. Isso permite uma concentração melhor e um processo de tomada de decisão mais eficiente. Sem um bom preparo físico, esses processos serão menos eficientes”, sentencia Castle.

Toda essa preparação é aplicada de maneiras diferentes quando se senta ao volante do carro.
Explicação dada pelo psicólogo britânico Paul Castle (Arte: Bruno Mantovani)
Castle aponta também o fator ‘experiência’ como um diferencial em uma competição automobilística. “O tempo de reação é relativamente similar em várias categorias. A diferença pode estar na quantidade de potência disponível e como ela afeta a configuração do carro. Eu já ouvi um piloto de turismo falando sobre o carro parecer mais lento que um monoposto, então um carro da GP2 pode parecer muito mais rápido para um piloto de um Ginetta G50. As reações estão baseadas na experiência ganha, então esse elemento é chave”, relata. “Interessantemente, pilotos na nova F-E estão precisando ‘reaprender’ técnicas de pilotagem diante do fato de que não conseguem mais ouvir o que o motor está fazendo”, comenta.

Na opinião de Castle, não é possível falar em pilotos que são mais fortes ou mais fracos mentalmente. “Diplomaticamente falando, qualquer piloto que chegou ao pináculo que é a F1 tem certas qualidades exigidas para o trabalho”, reflete. Mas o psicólogo crê que é possível notar como pilotos diferentes tratam as corridas de maneiras diferentes. “Alguns vão reagir no que percebemos ser um modo extravagante, arrogante ou desnecessariamente emotivo; outros vão parecer frios ou clínicos; Outros, agressivos”, lista.

“Somos colocados diante de uma grande variedade de comportamentos que podemos cadastrar, mas também somos colocados diante de uma grande variedade de modos como podemos perceber o comportamento dos outros. A percepção e a realidade nem sempre são harmoniosas. A coisa que os pilotos compartilham é o desejo de vencer, e acho que esse desejo nos entretém como audiência”, analisa o britânico.
“Você simplesmente não consegue ser bem-sucedido se está bem psicologicamente e mal fisicamente. Uma coisa está diretamente ligada à outra”, afirma Josef Leberer, na foto à esquerda. (Foto: Sauber)

O trabalho em uma equipe de F1

O austríaco Josef Leberer possui mais de três décadas de experiência na F1. Fisioterapeuta de formação, está há quase 20 anos na Sauber como o responsável pela saúde e preparação física dos pilotos. E, em meio a essas atribuições, também trabalha o lado mental deles.

Com o passar do tempo, Leberer desenvolveu um elaborado programa que coloca em prática ano após ano com os contratados do time de Hinwil — em 2014, trabalha com os titulares Esteban Gutiérrez e Adrian Sutil, o reserva Giedo van der Garde e a pilota-afiliada Simona de Silvestro.

O cronograma de atividades tem início meses antes do campeonato começar. Para ele, o ideal, quando recebe um piloto novo, é começar já em novembro a realizar exames médicos e a executar os primeiros testes ou quando o competidor volta das férias, em dezembro. De cara, a abordagem visa preparar o lado físico recuperando o piloto do desgaste ao qual foi submetido na temporada anterior. A preparação é mais intensa durante os meses de janeiro e fevereiro, mas continua ao longo do campeonato nos intervalos entre as corridas e inclusive nos finais de semana de GP. Modalidades como cross-country, esqui, mountain bike, tênis, corrida e ciclismo costumam ser incluídas na programação — e também são usadas como experimentos para testar as reações dos pilotos, desde a coordenação motora até a capacidade de adaptação e o tempo de aprendizado. Já o lado mental é tratado em menor escala nesta fase para ganhar mais atenção mais tarde na temporada.

No aspecto físico, Leberer destaca como um GP de 300 km e quase duas horas exige do atleta, especialmente pela ação da força G nos ombros, no pescoço, na cabeça e nos braços, bem como o esforço que é feito nos pontos de freada. Aqui, o principal adversário é o cansaço: se bater, torna-se impossível guiar com a precisão que é necessária em uma prova da principal categoria do automobilismo mundial. E isso acaba afetando a parte psicológica, facilitando momentos de desconcentração e erros.
Leberer e Senna

Leberer ganhou notoriedade na F1 pelo trabalho que realizou na McLaren entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 1990. Nesse período, atuou como fisioterapeuta de Alain Prost e Ayrton Senna — deste último, tornou-se grande amigo e confidente até os últimos dias da vida do tricampeão mundial.

A relação com Senna inclusive o deixou triste pelo o que aconteceu com a Seleção brasileira na Copa do Mundo. “Sei o quanto são determinados e apaixonados pelo seu país. Durante muitos anos, eram os brasileiros que dominavam o futebol. Todos aprendiam com os brasileiros”, recorda. De longe, Leberer acompanhou e notou que alguns jogadores do Brasil jogaram mais por si próprios do que pela equipe, além de sofrerem pela pressão de disputar a competição em casa. “Não era um problema deles que a FIFA ou o governo tenham optado por fazer a Copa lá, mas eles queriam proporcionar alegria aos torcedores. Por outro lado, também são esportistas, alguns são estrelas, então a expectativa é sempre de que eles vão fazer o seu trabalho”, comenta.

Voltando ao automobilismo, Leberer diz que se impressionou desde o primeiro momento com a capacidade de Ayrton. Eles se conheceram quando o brasileiro chegou à McLaren, em 1988. “Senna era uma grande pessoa para mim, muito forte mentalmente e determinado. Ele era uma pessoa que não falava muito, mas, quando falava, sempre dizia as coisas certas. Nunca prometia algo que não pudesse cumprir”, lembra.
 
No fundo, o austríaco considera que o automobilismo é uma questão de conhecer os limites e estar preparado para buscá-los — física e psicologicamente: primeiro vem os próprios; depois, os dos adversários.

“Você sempre precisa saber até onde pode ir, quais são os limites, e isso está sempre mudando porque os regulamentos mudam – os carros, os sistemas, os pneus. Carro com tanque vazio é outra história. A temperatura é outra coisa diferente, muda a todo momento. Na verdade, é muita informação que você precisa reunir a todo instante para obter o máximo de performance”, diz Leberer em conversa com a reportagem da REVISTA WARM UP em Hockenheim.

“Mas o mais importante é você entender os seus próprios limites, ou seja, se perguntar: ‘Até onde eu posso ir? O quanto posso forçar? O que eu aguento? Quantas voltas eu consigo percorrer usando toda a minha força? Como consigo isso?’ Então o próximo passo é descobrir sobre os rivais”, continua. “Tenho de me perguntar se eu sei os limites dos meus rivais, do meu companheiro de equipe e se o meu carro é tão competitivo quanto dos meus adversários. É importante saber de tudo isso: ‘Será que eu os conheço bem? Até onde eles podem ir? Como reagem sob pressão? Como eles reagem se os provocar? O que acontece?’”

Até mesmo a origem de cada piloto oferece informações importantes que podem ser valiosas no momento de uma disputa. “De que cultura são, de que país vêm, qual a sua história no esporte, saber sobre a família, que tipo de vida leva. Por exemplo, nós sabemos que os competidores da América do Sul, os latinos, os italianos, são muito emotivos normalmente. E algumas vezes é muito bom ser tão emotivo, porque você consegue usar essa energia, esse poder. Mas às vezes você precisa usar o seu cérebro para fazer a coisa acontecer. Você precisa esperar, precisa ser paciente. É importante saber de tudo isso, e fazer tudo isso acontecer não é fácil”, avalia. “Mas é muito interessante trabalhar com isso tudo”, assegura.

Leberer não dissocia a preparação física da mental. “Você simplesmente não consegue ser bem-sucedido se está bem psicologicamente e mal fisicamente. Uma coisa está diretamente ligada à outra”, pontua. Ainda assim, melhorar o modo como os pilotos lidam com a pressão é uma das tarefas mais complicadas, especialmente para os que chegam muito novos à F1 — e a Sauber tem um histórico de lidar com jovens, como fez, recentemente, com Gutiérrez e, antes dele, com Sergio Pérez.

“É uma pressão muito grande para esses pilotos estarem aqui”, observa. “É uma grande responsabilidade e eles só têm 21, 22 anos. Apesar de tudo, da experiência que trazem de outras categorias, eles fazem um ótimo trabalho. Mas é também uma questão de tempo chegar em um nível alto: é preciso trabalhar muito, aprender passo a passo. A pressão e a cobrança sobre os jovens é enorme; a responsabilidade, também. E, se encontram as pessoas certas, a equipe certa, a coisa fica um pouco mais fácil. É como no futebol: também é preciso ter um chefe ali, um treinador que saiba entender também toda essa responsabilidade.”

Faz parte do trabalho de Leberer ajudar os pilotos a se concentrar, respirar melhor e “tirar tudo que é possível”. “É importante conhecê-los e se dar bem com eles para que o trabalho tenha sucesso”, conclui.
O fator psicológico vem sendo decisivo em favor de Nico Rosberg na briga pelo título da F1 em 2014. (Foto: Getty Images)

A aceitação dos pilotos

Ainda há preconceito com relação à psicologia na sociedade. Muita gente considera que procurar o acompanhamento de um psicólogo é sinal de debilidade ou doença. E, naturalmente, isso se estende para o mundo do esporte.

Paul Castle admite que ainda há resistência a sua atividade em algumas áreas do automobilismo. “Isso pode ser porque os pilotos pensam que ‘precisa ter algo errado’ ou que o psicólogo ‘vai achar minha fraqueza’”, cita. “Aqueles pilotos que recorrem a psicólogos do esporte estão entrando em contato com uma abordagem científica para identificar e aprimorar áreas em que o desempenho pode ser refinado. Não faz muito sentido ter o mais moderno, o mais leve componente do motor, se a motivação para correr na chuva ou a confiança para entrar na curva 7 15 km/h mais rápido estão perdidas”, opina.

No Brasil, João Ricardo Cozac diz que o preconceito já foi muito maior, mas, de alguns anos para cá, a psicologia tem sido mais aceita no meio do automobilismo, bem como em outros esportes — na realidade, é mais no meio do futebol que ainda reside muita rejeição.

Alguns pilotos de F1 não veem problema em admitir abertamente que recorreram a auxílio psicológico para melhorar o desempenho na pista. Felipe Massa, por exemplo, o faz. Revelou isso em 2012, quando conseguiu se recuperar, no segundo semestre, de um dos piores momentos da carreira.

“O lado psicológico ajuda, sem dúvida nenhuma”, assente o brasileiro à RWUp durante o fim de semana do GP da Alemanha de 2014. “Tem algumas pessoas que pensam que se procura ajuda psicológica porque estava com algum problema, mas não, é para evoluir e melhorar. Acho que isso faz parte do esporte. Eu fiz por algum tempo e continuo fazendo, e estou muito bem comigo e com meu lado psicológico”, garante. “Não tive nenhum problema em procurar ajuda.”

Mas não são todos que compartilham deste pensamento. O mexicano Sergio Pérez foi na contramão do que disse Massa. “Não tenho ajuda psicológica. Não é algo que me preocupa. Eu acho que o piloto, sim, precisa ser mentalmente muito forte, é quase tão importante quanto a parte física. Ajuda, sem dúvida”, avalia.

Conhecido como um dos pilotos mais fortes mentalmente do grid, Fernando Alonso não disse se faz acompanhamento psicológico, mas concorda que jogos mentais podem, sim, ser usados em disputas por vitórias e por títulos, principalmente. “Eu acho importante esse jogo mental na disputa do título. Faz parte”, posiciona-se.

E a disputa pelo título da temporada 2014 já teve momentos assim. No GP de Mônaco, Lewis Hamilton ficou visivelmente abalado com a suspeita saída de pista de Nico Rosberg durante o treino classificatório — tema bastante abordado na reportagem de capa da edição 50 da REVISTA WARM UP. Com a pole provisória nas mãos, o alemão, que estava à frente de Hamilton no traçado de Monte Carlo, travou as rodas na freada para a curva Mirabeau e foi para a área de escape, provocando a bandeira amarela que não deixou o companheiro de Mercedes tentar roubar-lhe a pole-position.

Os comissários investigaram o caso e decidiram não aplicar a Rosberg nenhuma punição. No dia seguinte, largando da primeira posição, o alemão dominou a prova, segurou as investidas do parceiro e venceu. Mas o mau humor de Lewis, que possui um histórico de se deixar abalar, continuou sendo notado até o piloto vencer o GP da Inglaterra, mais de um mês depois.

Hamilton, assim como Alonso, pensa que jogos mentais podem influenciar o destino de um campeonato, mas não crê que adiante tentar usar deste artifício ao longo deste campeonato, já que vê Rosberg muito forte neste sentido — o alemão seria imune a qualquer tentativa de ser desestabilizado. “Infelizmente, é muito complicado”, afirma.