Grandes Entrevistas: Tony Kanaan

“Existem várias maneiras para você se tornar um ídolo. E acho que agora sou pela minha personalidade, por tudo o que eu passei, pela minha história de vida”

VICTOR MARTINS, de São Paulo
HUGO BECKER, de Guarulhos
Tony beija o troféu da vitória nas 500 Milhas de Indianápolis: "É a realização de um sonho. Você está nas nuvens" (Foto: Chris Graythen/Getty Images)
tempo passa, e já faz quase um mês que aquela vitória colocou fim a um tempo de 12 anos de espera e os últimos dois de agruras e dificuldades na profissão. O “melhor, estraga” que soltou prontamente quando a Revista WARM UP disse se nem era necessário perguntar estar tudo bem, dias depois à conquista, nem deve representar a realidade. A ingrata e apressada Indy não lhe deu tempo suficiente para comemorar, jorrando corridas sem parar desde então, e os resultados não foram iguais nem suficientes para colocá-lo entre os líderes do campeonato.

Mas para quem já tem um título no bolso, as 500 Milhas de Indianápolis são mais que tudo. A eternização vem expressa com o “rosto feio” no Troféu Borg-Warner e com os milhões que caem nas contas, sua e da KV, que lhe servem como segurança pelo resto da carreira e da vida. A voz ao telefone expressava isso tudo: a felicidade e a exaustão. E, também, as que não se furtou em definir.

“É a realização de um sonho. Você está nas nuvens. No dia que você fica irritado, de mau humor, fica tudo muito bem. Não é que eu estou sempre feliz da vida, mas sabe quando acontece alguma coisa, algum imprevisto, alguma notícia que você não quer durante o dia de trabalho, que você fala: 'Putz, isso não é tão legal'? Pois você vai e lembra que você ganhou as 500 Milhas.

Eu me lembro que a semana da Indy 500, nos últimos 11 anos, era sempre a pior semana que eu tinha. Porque eu estava exausto, desgastado e ainda estava puto. Então tem sido completamente diferente.”

A vida de alguém que venceu em Indianápolis pela primeira vez causa um cansaço que bate na extremidade. O alerta já havia sido dado pelos amigos Helio Castroneves e Dario Franchitti.

“Os dois me falaram muito. Na verdade, como eu ganhei o campeonato em 2004, já passei um pouco por isso. E como eu ganhei na última corrida, todas essas coisas de entrevistas e tudo, eu fiz, mas não havia uma corrida no fim de semana seguinte. Então está sendo realmente bem diferente, muito cansativo, porque dar entrevista, parece que não, mas cansa. Você repetir a mesma coisa 60 mil vezes... Chega uma hora em que você começa até a ficar confuso.”
Tony lidera Ryan Hunter-Reay em momento decisivo da 97ª edição das 500 Milhas de Indianápolis. (Foto: Robert Laberge/Getty Images)
E o nó na cabeça aumenta quanto tudo é o mesmo em duas línguas. “E aí você tem que dar as respostas, começa falando em português e tem que responder em inglês, e vice-versa”, diz. O alívio pela vitória acaba sendo o remédio. “É a maior conquista da minha vida, com certeza, mas não é que eu tenha tirado um peso. Eu realizei uma coisa que teria a possibilidade de não acontecer nunca.”

Por mais que Tony seja otimista, a hipótese de tentar tantas vezes que fosse e falhar em todas era algo que povoava sua cabeça.

“Cheguei a pensar que eu tinha que me acostumar com a possibilidade de que poderia não acontecer, principalmente pela questão dos patrocínios. Esse ano, por exemplo, eu não sabia se eu ia voltar lá no ano que vem. Então, tive de me acostumar com essa possibilidade. Mas isso não me fez deixar de acreditar que eu poderia ganhar, entendeu. Eu sempre achei que em todas as vezes que eu fosse correr em Indianápolis, eu teria chances de vencer.”

Nem por isso, uma outra hipótese, a de abandonar a carreira, passou pela cabeça – apesar de o recado dado ao filho Léo, minutos após a vitória, de que “o papai está voltando”, pudesse sugerir que seria o acordo.

"Eu amo minha profissão, e nos últimos cinco anos, desde que me separei da mãe dele, eu sei que é essa a minha realidade. Nem cogito. E falo desde já: nem quando eu me aposentar, vou voltar a morar no Brasil. Sou uma personalidade aqui. Muitas coisas ainda vão pintar para mim em termos profissionais para eu fazer aqui. Eu me vejo sempre indo e voltando. Hoje em dia, já recebo um monte de convites. Acho que vai ser algo natural. Ou ser comentarista de TV ou ser tipo um instrutor de pilotos, para alguma equipe que me contratar.

E eu não sou de largar de mão. Fiquei mais puto. Foi aí que eu disse: 'Quer saber? Agora é que eu vou atrás mesmo, vou arrumar essa porra e vou mostrar para esses caras [da Andretti] que eles vão se arrepender de terem me mandado embora’.”
“Vou mostrar para esses caras [da Andretti] que eles vão se arrepender de terem me mandado embora”
Andretti, um caso curioso nessa história toda. O campeonato atual vem tendo um domínio dos carros da equipe de Michael, embora o líder seja Helio Castroneves, da Penske. Andretti que foi a casa de Kanaan durante oito temporadas e que provocou os perigos dos últimos anos por fazer o piloto ter de correr para se virar. Andretti que o cumprimentou pela vitória na Indy 500 como nos velhos tempos.

“É que vocês não viram, infelizmente... Os caras pegaram o [Ryan] Hunter-Reay, aí o carro foi para a frente, e vieram o Marco, o Michael e o Mario. Eles vieram falar comigo. O acordo que ele me deu quando ele me mandou embora... Eu não tenho que ficar puto com o cara, porque eu aceitei. Se eu não quisesse aceitar, eu ia 'pro pau'. É lógico que ele não é meu amigo, não é um cara com quem eu converso todo dia, que eu chamo para jantar, mas a gente já conversou algumas vezes. Quando o [Dan] Wheldon morreu, por exemplo, naquele fim de semana, antes de assinar com ele, o Michael veio me perguntar se eu já estava certo para correr no outro ano, e eu já tinha contrato de dois anos com a KV. Ele não me perguntou se eu queria guiar para ele, mas queria saber se eu estava disponível ou não.”

Ganhar em Indianápolis de um jeito que muitas vezes lhe tirou a vitória – em bandeira amarela – e justamente em 2013 trouxe um par de ironias que passam exatamente pelo amigo que morreu há mais de um ano e meio, Dan Wheldon.

“Pensei nele na hora em que eu cruzei a linha de chegada... Na hora em que eu comemorei, eu pensei... E como ele ganhou a antepenúltima, o Dario [Franchitti], a última e eu, essa, os nossos rostos no troféu vão estar um ao lado do outro. Não querendo ser poético, mas, bicho, é difícil você falar que não existe coincidência, destino. Se você for pensar, parece a história de um filme. Esperar todo esse tempo, e aí, quando eu ganho, vou estar ao lado dos meus dois melhores amigos em um lugar que é uma lenda do automobilismo.”

Ainda, a vitória se deu depois de um malogro em São Paulo que o viu, novamente, em uma enrascada da KV. Kanaan parou na reta principal no meio da prova sem combustível quando tinha chances reais de se consagrar frente a seu povo. Foi maior que a dor que carregava na mão direita avariada depois do choque com Oriol Servià em Long Beach. E o desempenho nos treinos em Indianápolis não o credenciava como um dos favoritos.

“Pois é... Você perguntava pros caras, nego não sabia nem que eu existia. Eu acho que as pessoas me respeitam porque elas sabem o quanto eu mando bem lá, entendeu? Mas se você falasse: ‘Ah, o Tony tá lá, em 12º, 15º, em todos os treinos...’”
Tony comemora o título da Indy em 2004, obtido pela Andretti, equipe que o dispensou em fins de 2010. (Foto: Robert Laberge/Getty Images)
 
E a edição deste ano foi a que mais gerou audiência e comentários nas redes sociais nos últimos tempos, o que aumentou a importância do feito. Tony, aos 38, foi catapultado a uma condição de herói, e não só nacional. Algo que o brasileiro não tem como dimensionar.

“Estou percebendo cada vez mais dos meus amigos, com quem eu falo, e agora vocês me confirmando isso, que realmente os caras falam: 'Velho, você não tem noção. Foi realmente uma das melhores corridas que o Brasil viu'. Percebi um pouco pelo meu Twitter, as mensagens, mas eu não tenho ideia. É legal até você falar, porque isso é uma coisa gratificante.

E eu, sinceramente, não sei o que aconteceu nesses últimos dois anos, mesmo no Brasil. Eu fiquei muito famoso. Famoso não, popular. Na corrida do Brasil, foi impressionante, nem eu acreditava. E em Indianápolis, está pior ainda. No Brasil, o autódromo inteiro era para mim, e aqui também. Aí você fala assim: 'Mas cacete, meu. Mas por quê? Será que o pessoal tem pena que eu não ganhei, ainda? Será que o pessoal gosta de mim por essa personalidade que eu tenho, de ser superaberto com todo mundo? De repente é um mix de tudo isso'... Tomou uma proporção muito grande. A hora que os caras falaram meu nome, deu até vergonha. Porque era só para mim.”
Tony em 1997, quando chegou nos Estados Unidos. "Já estou correndo aqui há 16 anos. É muito tempo" (Foto: Mike Powell/Allsport/Getty Images)
Um não-americano sendo aclamado na terra deles: uma visão bem diferente da vista no Brasil, onde é praticamente obrigatório torcer por brasileiros na cultura de massa difundida pelas emissoras de TV. “Eles não são bairristas. São zero bairristas. Foi uma coisa muito legal, muito legal, mesmo. Isso tomou uma proporção muito grande aqui”, diz. Se parece que o pedestal demorou muito a erguê-lo ao posto de ídolo, Tony fica na dúvida.

“Não sei o que é tarde e o que é cedo. Existem várias maneiras para você se tornar um ídolo. Ao mesmo tempo, um ídolo se constrói por respeito, por admiração. Leva tempo para as pessoas descobrirem quem você é. Vamos usar um caso que todo mundo conhece: o caso do Senna. O Ayrton não se tornou um ídolo quando estava correndo na Toleman. Todo mundo gostava dele, quando ele foi para a Lotus todo mundo falava: 'Esse cara é bom', mas quando ele ganhou o campeonato na McLaren, aí fodeu. Acho que essa foi a minha lei natural, também. Ganhei um campeonato, mas pô... Um brasileiro nos EUA, que é um lugar que tem uma porrada de esportes, as pessoas foram descobrindo o Tony. E acho que agora sou pela minha personalidade, por tudo o que eu passei, pela minha história de vida... As pessoas admiram muito essas coisas. Já estou correndo aqui há 16 anos. É muito tempo.”

E depois de tanto tempo, sempre o tempo, finalmente veio algo para ajudar Kanaan. “Muito. Vai ajudar muito”, ressalta. “Porque eu estou sem emprego. Meu contrato vence neste ano”, completa. Mas agora está “tudo certo”. Um vencedor em Indianápolis não tem como ficar sem patrocínios. A Sunoco, que estampou sua marca no carro de Townsend Bell, da Panther, passou para o carro de Tony, sem contar nos outros menores que vão ajudá-lo até o fim da temporada. “Nós vamos terminar o ano. Não teria cabimento isso não acontecer, graças a Deus. Só com o 'prize money' que a gente ganhou, a gente já termina o campeonato. A preocupação é só para o ano que vem”, fala. A KV, então, que abra os olhos – e os cofres – para manter seu passe.

“Tem possibilidade de eu sair? Tem. Não é que eu esteja querendo sair. Mas o negócio é o seguinte: meu contrato está vencendo. Eu sou um piloto que está disposto a guiar para quem me oferecer um contrato. Estou muito bem onde eu estou. Estou com a equipe que eu construí. Hoje, tenho um grupo de pessoas que são os caras que eu realmente quero que trabalhem para mim. Só que a gente precisa arrumar o dinheiro. Se a equipe não arrumar o dinheiro, e acontecer de eu arrumar metade do orçamento e achar, de repente, uma outra equipe que tenha um pouco mais de grana, que quer me pegar porque eu ganhei e que tem a outra metade, vou ter que fazer uma avaliação disso.”

A KV, aliás, chegou à primeira vitória nesta Indy reunificada e justamente depois de seu pior ano. Kanaan não era nem louco de dizer que brigaria pelo título da temporada na abertura em São Petersburgo. Só que agora os tempos – sempre eles – são outros.

“A gente deu uma melhorada muito grande nesses últimos três meses, em algumas coisas que a gente descobriu no túnel de vento. Fizemos um teste de amortecedor que o carro deu uma melhorada boa. A equipe deu uma crescida grande. No Brasil a gente estava superbem. Em Long Beach, também. A gente está entre os cinco. Na minha opinião, dá para a gente ganhar o campeonato porque ele está muito atípico. Se você falasse para mim que o Will Power estaria em 17º ou 18º no campeonato depois de Indianápolis, eu ia rir da sua cara. Então isso abriu uma possibilidade para nós, porque os caras que dominavam estão muito para trás, e os caras que estão na frente não são tão constantes. Isso abre o campeonato para qualquer um.”
“Minha meta principal, agora, é construir uma equipe, se Deus quiser na KV, como uma Ganassi, uma Penske. É o meu projeto”
Mesmo sendo a KV então uma equipe quase sem estrutura, Tony estreou no time em 2011 com um pódio em São Petersburgo. (Foto: Mike Ehrmann/Getty Images)
O que quer dizer, então, que não é impossível pensar que Tony possa reatar o laço com a tal Andretti que o deixou na mão.

“Nada é impossível. Mas eu acho muito difícil, porque hoje ele tem três pilotos muito bons. A equipe está muito boa. Ele não precisa do Tony lá. Ele não vai mandar o Hunter-Reay nem o [James] Hinchcliffe embora porque são pilotos que estão ganhando corrida. É aquela coisa do 'timing' da história, é o ciclo. Esses pilotos vão embora e vão entrar outros. Esse ciclo está no meio desses caras. Por que é que o cara vai mandar o Hunter-Reay embora e me colocar? Não tem por quê. A não ser que ele faça um quarto carro, a gente arrume um patrocínio, eu leve metade, leve a Itaipava, que está superempolgada com a história... Quem sabe? Mas aí eu continuo pagando, e se for para continuar pagando, prefiro tentar fazer uma coisa muito sólida onde eu já estou, porque construí minha casa lá. O combinado é três anos lá, e agora que a gente acertou um pouquinho, vamos melhorar. Não dá, também, para abandonar o negócio.”

E com a evolução já falada, a KV não é aquela pequena que se mostrou no ano passado. “A gente não está tão atrás em termos de acerto, mas nossa equipe ainda continua sendo pequena. A gente não tem o mesmo número de pessoas que eles têm. São coisas que ainda faltam. Mas acho que a gente não está tão atrás deles”, diz. E se percebe que os anos ao lado de Jimmy Vasser embutiram uma gratidão inerente. Não é qualquer dinheiro ou proposta que vá tirar Kanaan assim, num estalar de dedos, da KV.

“Minha meta principal, agora, é construir uma equipe, se Deus quiser na KV, como uma Ganassi, uma Penske. É o meu projeto. Agora que a gente conseguiu um título tão importante, minha meta é continuar correndo com eles, tentar ganhar o maior número de títulos e corridas e construir uma equipe sólida como tem que ser.”

Tal objetivo, claro, tem de vir com um alto orçamento. “E eu vou ficar extremamente decepcionado e indignado se eu não arrumar emprego para correr no ano que vem, diante de tudo o que a gente está fazendo com a equipe que a gente tem. Eu sei que existem injustiças no automobilismo, mas é uma coisa que eu acho impossível de acontecer, sinceramente. Acharia uma puta sacanagem. Não é que a gente foi lá, os cinco primeiros bateram e a gente ganhou a corrida com um puta rabo. Andamos entre os seis primeiros em todas as voltas da corrida”, desabafa.
 
Kanaan teve como adversários na Indy 500 os velhos conhecidos da Andretti, mas um novato encardido: Carlos Muñoz ficou em segundo e poderia até ter ganhado não fosse a bandeira amarela amiga do fim, na volta 198. “Ele mandou muito bem. Ele é um futuro Montoya da vida”, define Tony.

“Ele se posicionou muito bem. Ele entrou para fazer Indianápolis numa puta equipe, só que a gente tem de ser realista. Ano passado, a mesma equipe tinha outros carros com outros pilotos. Dois anos atrás, a Andretti não conseguiu classificar os carros. O moleque já chegou lá, foi a melhor Andretti na classificação e a melhor na corrida. Você tá brincando? Estamos falando de nego que está lá há anos. O Hunter-Reay é fodido, não é bobo. Eu esperava que ele fosse fazer alguma cagada, e o moleque não fez nada, nenhuma cagada. O meu maior medo era ele fazer uma cagada e me levar junto! Quando ele veio por fora, pensei que ele fosse lançar para me passar por fora.”

Beber o leite derramado é incomparável, algo que o brasileiro não relaciona a nada que tenha feito em sua carreira. “Passou um filme pela minha cabeça no domingo à noite”, admite, pensando no sonho que se transformou em realidade.

“A vida é feita de momentos. Para qualquer pessoa, naquele momento, aquilo foi a melhor coisa que aconteceu. Passam os anos, acontece outra coisa que vai ser a melhor que aconteceu. Eu teria que fazer uma lista, sei lá, dos dez melhores momentos da minha vida. Eu me lembro de quando assinei meu primeiro contrato de Indy, que foi uma coisa muito especial. Quando ganhei minhas primeiras 500 Milhas, lá em Michigan, também foi muito especial. E assim vai. Mas um título como esse, que é uma corrida que é ‘a’ corrida, não tem jeito. Você vira uma lenda do automobilismo para o resto da vida. Com certeza, foi minha maior conquista.”

E há de virem maiores conquistas. Há tempo para isso.
 
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