A nova corrida

Ainda que por horas, prisão de Jaime Melo Jr. no Paraná depois de tentativa de fuga traz à tona problema pessoal do vencedor das 24 Horas de Le Mans com alcoolismo, depressão e solidão

VICTOR MARTINS e HUGO BECKER, de São Paulo
Com problemas pessoais e profissionais, Jaime Melo Jr. teve a vida virada do avesso ao ser preso após um acidente de trânsito em Cascavel. (Foto: Divulgação/Ferrari)
 carreira de Jaime Melo Jr., experiente piloto especializado em provas de endurance, deixou de ser notícia apenas por seus feitos nas pistas. O paranaense de 33 anos ganhou as manchetes por conta de uma fuga policial no fim de abril, quando foi flagrado, segundo as informações divulgadas, alcoolizado ao volante de seu carro e acelerou até destruir o portão de uma residência em sua cidade natal, Cascavel.

O piloto, que estava com a habilitação suspensa e trazia no interior de seu automóvel uma lata de cerveja e diversos medicamentos em uma mochila, foi detido e encaminhado para a 15ª Subdivisão Policial, onde ficou preso, e, horas depois, liberado. De acordo com a Polícia Civil local, Melo, cujos medicamentos foram reconhecidos pela própria polícia como drogas vindas do Paraguai, foi autuado também por desobediência e excesso de velocidade.

Desde o polêmico episódio, a vida virou do avesso. As vitórias que vieram em sua longa carreira, que passa por títulos na F3 Sul-Americana, F-3000 Europeia, FIA GT, ALMS e pelas duas vitórias nas 24 Horas de Le Mans – ponto alto de sua trajetória – foram ofuscadas por cenário pessoal estarrecedor que envolve depressão, alcoolismo, drogas e solidão.

É Jaime Melo, o pai, quem conta à Revista WARM UP a situação do piloto. Dono de uma empresa de poços artesianos, o empresário de 56 anos diz que a principal motivação para o surto comportamental de seu filho, naquele momento, foi o rompimento com a ex-noiva – apenas o ápice de uma série de dramas acumulados ao longo dos últimos anos.
“Os policiais chegaram e já foram apavorando,
achando que era algum bandido”
O pai dá a razão e uma versão diferente para o caso. “Ele saiu na noite, da sexta-feira para o sábado, e achou que a ex-noiva – ele já tinha terminado com ela – estava dentro do carro de um 'caboclo' aí. Ele achou que era ela. “Nisso, ele foi atrás conversar com o cara, e acho que o cara ligou para a polícia”, conta, para então ressaltar: "Ele não estava embriagado. Esse negócio que falaram, que tinha indício de que ele estava drogado, isso é conversa. A polícia colocou lá [no relatório da ocorrência], mas ele não estava.”

Ainda segundo o relato, os policiais “chegaram e já foram apavorando, achando que era algum bandido” e “foram algemando, do jeito que apareceu na imprensa”. O pai foi à delegacia, onde comprovou a fuga e o desacato do filho. “Quanto a isso, não teria problema nenhum, mas como ele reagiu à prisão... Depois que os caras souberam quem era ele, quiseram amenizar.”

Melo não pagou fiança pela soltura de Júnior ou teve de esperar decisão judicial para a rápida liberação. A detenção durou apenas algumas horas. ”Ele foi liberado e não teve nenhum outro agravante que desse tanto destaque. O delegado falou: 'Aqui não é o lugar dele, não. Pode dar jeito que vamos tirar ele daqui'.”

Segundo Jaime, a polícia local sequer submeteu o filho ao exame de bafômetro, quanto mais toxicológico. “Disseram que ele teria indício de que estava drogado. Mas não foi feito exame de sangue, não foi feito nada", alega. “Ele não estava. Eu fui à delegacia, e inclusive o delegado estava lá. Os caras falaram: 'Ele está normal, conversando normal com todo mundo, sem se alterar, sem nada'.”

A polícia relatou que encontrou um pacote com cápsulas vindas do Paraguai na apreensão do carro do piloto. De acordo com Melo, não se tratava de drogas. “Isso aí é mentira”, então explicando que os comprimidos encontrados eram “medicamentos contra a depressão”. "Isso foi receita médica, uma ampola que o médico deu para ele tomar. Estava na mochila dele. Eu o levei na farmácia aqui, para os caras aplicarem. Um médico de Curitiba que deu isso para ele”, revela.

A informação de que havia uma lata de cerveja no carro foi confirmada por Jaime. “Mas droga não foi encontrada, não”, rechaça. "Não era ecstasy”, acrescenta. “Isso, a imprensa colocou meio no grito porque foram no embalo, porque eles querem 'ver o oco'.”
Vitórias nas 24 Horas de Le Mans foram ponto alto da carreira. (Foto: Divulgação/Ferrari)
 

A revolução na carreira

O estado depressivo de Melo Jr. foi resultado de uma combinação de problemas pessoais e profissionais. A ausência das competições e o fim de seu relacionamento com sua noiva abalaram o piloto, que já trazia alguns sintomas desde o tempo em que morava na Europa. Quando foi contratado pela equipe de fábrica da Ferrari para a disputa da ALMS, Jaime passou a morar sozinho na Europa. Lá, passou a consumir álcool em demasia. "O problema maior dele é com bebida”, admite o pai.

A sequência de adversidades que culminou com a prisão começou em 2009, com o desgaste – e posterior rompimento – da relação com a montadora italiana. Se houve rumores que de Jaime havia sido demitido, o pai contesta: “ Ele que pediu para sair da Ferrari”, diz. “Ele tinha desentendimento com o manager dele. Era um italiano filho da puta de marca maior, que o sacaneava direto. O cara recebia os pagamentos e não passava para ele, enrolava, e ele estava se estressando com isso”, explica. “No fim de 2011, ele mesmo falou para mim: 'Eu não aguento mais esse cara'. Uma hora, o cara chega e desiste. Ele foi se enchendo, se enchendo, e aí ele fez a correspondência para a Ferrari pedindo demissão."

Depois, Melo Jr. foi chamado para correr pela equipe Luxury, que foi disputar o campeonato mundial de endurance, o WEC. Ele correu até Le Mans, onde ano passado ficou em segundo, no primeiro ano da equipe. Mas a equipe quebrou. A dona da equipe resolveu vender o time. Ela não correu mais, e ele ficou sem correr."
Se houve rumores que de Jaime havia sido demitido, o pai contesta: “Ele que pediu para sair da Ferrari”, diz. (Foto: Ferrari/Divulgação)
Em seguida, o piloto acertou com a RAM para disputar as 24 Horas de Dubai, em janeiro deste ano. Mas a má sorte acabou fazendo com que o brasileiro ficasse de fora da disputa. A prova seria uma preparação para o European Le Mans Series, campeonato para o qual Melo Jr. já tinha acordo para disputar a temporada completa – algo que também não aconteceu.

"O cara não vai me descer uma escada na casa da noiva dele e não me quebra o pé? Falo sério", diz o pai. "Isso foi em dezembro, e os caras já tinham mandado passagem, estava tudo certo. E o pior de tudo foi aquele negócio da promessa”, referindo-se ao lugar para o campeonato europeu. “Mas não foi em Silverstone, depois não foi na outra prova... Eu falei para ele: 'Cai fora disso aí, porque isso não vai dar mais em nada, não. Os caras estão te enrolando e você não vai correr mais’”, declara".

As sucessivas decepções deixaram Melo Jr. mal. "Nessa altura, ele foi a um médico em Curitiba, um amigo nosso lá, e eu acho que ele começou a ficar meio deprimido, porque quando as coisas começam a não dar certo, né... Aí o cara meio que cai", justifica o pai.

Jaime ainda revela que o filho “conversava com o pessoal da Itália” e que “já estava tudo mais ou menos encaminhado para fazer as 24 Horas de Le Mans”. “Já tinha um pessoal correndo atrás, mas deu essa cagada ". A notícia da fuga policial repercutiu na Europa e acabou influenciando nas negociações entre Melo Jr. e a equipe, culminando na piora. "Aí o cara já está pra baixo, e ainda termina com a noiva. Ele ficou meio descabeçado. Ele estava junto comigo, aqui na minha firma, ele vinha e ficava o dia inteiro aqui, fazia a academia dele, normal... Estava até aprendendo violão. Mas vai acumulando uma coisa, acumulando outra, o cara já bebe, aí faz uma cagada dessas na rua”, repete.

O pai se queixa da repercussão. “Se fosse um 'zé-orelha' qualquer aí, eles não tinham feito esse estardalhaço todo. E eu, também, nem fui atrás", admite. "Isso aí, quanto mais mexe, mais fede. Agora, todo mundo fala que ele andou junto com os 'caboclos' aqui e tal. Mas ele vai ter que se virar com isso daí. Eu não tenho certeza. Não posso dizer que não, também."

Questionado sobre o envolvimento do filho com os ‘caboclos’ e os atos, o empresário não descarta a possibilidade de Melo Jr. ter feito uso de entorpecentes ao longo da vida. “Mas eu nunca presenciei”, diz. “Porque se eu tivesse presenciado ou se eu soubesse de alguma coisa, o pau tinha comido, com certeza”.

Sobre um possível envolvimento de Jaime com maconha, o pai tornou a ser inconclusivo. “Quando ele corria na F-3000 com a Petrobras, havia corridas a cada 15 dias. Não tem como a droga sair do corpo. Só se o exame antidoping não pegasse isso, mas eu duvido que não, porque pegou o Tomas Enge com maconha, até aqui na Stock Car pegaram o Marcos Gomes Mas não vou dizer que não", fala. “Agora, depois desse período que passou, em que ocorreram essas cagadas todas, eu não posso falar nada.
“Vai acumulando uma coisa, acumulando outra, o cara já bebe,
aí faz uma cagada dessas na rua”
Novamente em defesa do filho, Jaime nega que tenha percebido algum indício de uso de entorpecentes. “Enquanto eu estava junto, não percebi e ele nunca caiu em exame antidoping. Ele passou por vários, então, como que vou falar que o cara usou drogas e foi correr? Isso não", diz Jaimão. "Ele fez o antidoping em praticamente todas as corridas que disputou. Principalmente as longas, como as 12 Horas de Sebring, Le Mans, são corridas que exigem responsabilidade. Todas tinham exame. A mesma coisa quando ele corria na F-3 e na F-Ford."

Jaime torna a tocar no ponto do alcoolismo. “A gente é que nem marido traído, fica sabendo sempre por último. O vício vem de tempos. Principalmente quando ele morou na Inglaterra e na Itália. A desculpa era a solidão, aquele negócio todo", prossegue. "Mas aí, encaminhou para esse lado. Agora, por último, é que ele estava morando com a ex-noiva dele, na Itália, no ano passado. É difícil você acreditar que poderia ter um troço desses...”

Após o fracasso da possibilidade de participação de Melo Jr. na European Le Mans Series, outra possibilidade que recentemente havia sido aberta para o paranaense foi o retorno para a ALMS. O piloto estava próximo de um contrato com uma nova equipe que usará motores Ford que deve fazer sua estreia ainda nesta temporada. No entanto, seu próprio pai admitiu que a partir de agora, as coisas serão mais difíceis para o filho.

"A gente vai ter que ver, porque para amenizar todo esse fogo...”, e respira. “A primeira coisa que todo mundo faz é escutar a versão da imprensa, mas não querem saber a versão de mais ninguém. Eu não sei o que vai acontecer. Se ele vai para a Itália, ou para os EUA conversar com o pessoal com quem ele estava negociando, porque estava quase tudo certo para ele correr com uma equipe de LMP2 lá na ALMS. Estava tudo encaminhado, bem avançado."

Pai e filho se falam pouco, no máximo uma vez por semana. "Da minha parte não ficou mágoa. As consequências, quem vai sofrer é ele", diz. "A gente fica sentido, mas isso é normal. Ele pediu perdão pelas cagadas, mas agora não adianta”, completa ao falar da nova corrida de Jaime, agora, a da recuperação e reabilitação.

Em contato com a 15ª Delegacia de Polícia Civil e também com a Polícia Militar de Cascavel, a WARM UP não conseguiu informações com nenhuma das corporações. Responsável pela operação que culminou com a detenção de Melo Jr. e pela divulgação dos detalhes à imprensa na ocasião, o tenente Wellington Bastos, do 5º BPM da cidade do oeste paranaense, afirma que estava "de folga" no dia do episódio e dá voz à declaração do pai.

Quiseram amenizar.
 
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