Stop & Go: Michael Andretti

“Ninguém me queria na McLaren. A única boa parte da experiência da F1 foi conhecer Ayrton”

RENAN DO COUTO, de São Petersburgo
Hoje dono de equipe na Indy, Michael Andretti disputou apenas uma temporada na F1 como piloto. Ainda que na poderosa McLaren, os resultados não foram bons. (Foto: Divulgação/Indycar)
á 20 anos, Michael Andretti, campeão da Indy em 1991, estreava na McLaren carregando sobre si uma enorme expectativa. Filho do último norte-americano campeão da F1, Mario Andretti, em 1978, Michael era uma promessa, mas no lugar errado e na hora errada. Ele colecionou problemas e não durou mais do que dez meses na categoria máxima do automobilismo. À Revista WARM UP em São Petersburgo, o ex-piloto e atual chefe de equipe na Indy relembrou sua passagem pela F1.

Revista WARM UP: Sua estreia na F1 completou 20 anos no último dia 14 de março. Que recordações você traz da sua passagem pela categoria?

Michael Andretti: Não são memórias boas, com certeza. A única boa parte da experiência para mim foi conhecer Ayrton. Ele era um grande cara, um grande companheiro de equipe e um grande apoiador. Foi a melhor parte. Fora isso, realmente não foram coisas muito boas. No Brasil, eu me classifiquei bem, em quinto, mas a corrida acabou na primeira curva quando a troca de marcha não entrou e acabamos batendo.

WUp: Como era o relacionamento entre você e Senna?

MA: Tivemos uma relação muito boa. Para se ter uma ideia, depois que eu saí [da F1], a minha primeira corrida foi na Austrália, e ele foi o primeiro a me ligar para me dar os parabéns. Ele passou a noite acordado no Brasil assistindo à corrida e estava feliz por mim. Quando fui liberado pela McLaren, ele deu uma entrevista coletiva para contar a todos o quão injustamente eu fui tratado. É o tipo de cara que ele era e esse é o tipo de relação que nós tivemos.

WUp: Fora do ambiente de trabalho, vocês conversavam? Eram amigos?

MA: Estávamos começando a ficar próximos quando ele morreu. Sim, eu o chamaria de amigo. Eu não deveria contar histórias, mas era muito divertido. Ayrton era louco. Fazia coisas e piadas engraçadas, especialmente se estivesse junto com Gerhard Berger. Era engraçado. Era uma boa pessoa.
“Se eu tivesse a experiência que tenho agora,
não teria ido para a F1”
WUp: Por que Senna falou que sua saída da McLaren foi injusta?

MA: Ele viu como eu fui tratado no time. Eu não quero entrar em detalhes, mas ele viu o que aconteceu. Ele sabia o que estava acontecendo comigo, sabia que não era justo.

WUp: Muita gente diz que Senna era centralizador. Você sentiu isso no período em que trabalharam juntos?

MA: Não. Ele era muito bom comigo, aberto, ajudava em qualquer momento em que eu perguntasse. Ele era um bom companheiro de equipe.

WUp: Ir para a F1 foi um erro?

MA: Sim. Não vou entrar em detalhes agora, nem culpar ninguém, mas, quando olho para trás, não havia como eu ter sucesso. Eu não ia ter sucesso. Se eu tivesse a experiência que tenho agora, não teria ido para a F1. No papel, quando você olha para a oportunidade, nem pensa, ‘é claro que tenho que fazer isso’. É por isso que eu fiz. Mas depois do meu primeiro teste, eu senti todo o ambiente e pensei: ‘Ninguém me quer aqui. Isso não vai funcionar’. Eu sabia disso.

WUp: Foi difícil mudar do ambiente que existe no automobilismo dos Estados Unidos para o que tem na Europa?

MA: Não, não. Quando digo isso, eu me refiro ao time. Ninguém me queria lá. Ninguém me queria. Dava para dizer que não ia dar certo. Não tinha nada a ver com a F1, tinha a ver com as circunstâncias e comigo estando naquele time.

WUp: Foi algo pessoal?

MA: Não. Foi política. Tudo foi política. O motivo para eu estar naquela cena e porque eu terminei onde terminei.

WUp: Quando caiu a ficha de que você deveria voltar para os Estados Unidos?

MA: Depois do primeiro teste, acho que eu sabia. ‘Algo não está certo aqui’, senti. Mas, provavelmente depois de Magny-Cours eu pensei: ‘Não acho que estarei aqui no próximo ano’. Não foi uma escolha minha. Apenas pensei: ‘Não vou durar aqui’. Naquele momento, estava pensando se eles iam me forçar a sair antes do fim do ano, como aconteceu.

WUp: É verdade que Ron Dennis, de alguma maneira, desrespeitava sua esposa?

MA: Não vou dizer nada sobre isso. Sem comentários.

WUp: Seu pai foi campeão mundial de F1. O que ele lhe falou sobre as diferenças entre a época dele e a sua?

MA: Era muito diferente. Quando estive na F1, ela era diferente da F1 em que ele pilotou. Ela se tornou muito mais política. Eu acho que ele ficou tão surpreso quanto eu fiquei. Houve um momento em que eu quase fiquei nos Estados Unidos e ele me disse: ‘Você precisa pegar essa oportunidade, é a melhor oportunidade’. E depois que eu peguei, desejei que não tivesse escutado aquilo.
Michael chegou em 3º lugar no GP da Itália, seu melhor resultado. Dias depois, foi dispensado. (Foto: Pascal Rondeau/Getty Images)
“Na F1, são apenas punhaladas e mais punhaladas fora do carro”
WUp: Diante disso tudo, se seu filho, Marco, um dia tivesse a chance de andar na F1, o que você diria a ele?

MA: Tem de ser a oferta certa e a situação correta. A equipe certa e uma equipe que realmente o queira. Tem que olhar para toda a situação e se certificar de que todos estão ao seu lado, porque, se não estiverem, ele não vai ter sucesso.

WUp: Você ainda tem amigos na F1?

MA: Ahn... Não... Eu chamaria Rubens Barrichello de amigo. Mas não, não conheço os outros caras que estão lá.

WUp: Você e Barrichello eram novatos na F1 em 1993. A amizade vem desde aquele tempo?

MA: Lá foi onde nós nos conhecemos. Ele sempre foi muito legal comigo, mas acho que ficamos mais amigos por causa de Tony [Kanaan], porque, quando Tony andava conosco, nós nos encontramos mais vezes. Na F1, nós conversamos algumas vezes, mas apenas éramos legais um com o outro, não realmente amigos.

WUp: O que tem de diferente entre a politicagem da F1 e a politicagem da Indy?

MA: Há política em todas as categorias. Aqui a corrida vem em primeiro lugar, a política, em segundo; na F1, a política vem em primeiro lugar, a corrida em segundo. O que acontece na pista não é tão importante quanto o que está acontecendo no pit-lane e nas garagens.

WUp: Por isso, dá para dizer que a Indy é um lugar mais agradável para estar?

MA: Você curte o automobilismo muito mais quando vem para cá. Tem mais a ver com as corridas, com os relacionamentos, é fazer todo o trabalho duro na pista e ainda ser civilizado com todo mundo. Na F1, é o oposto. São apenas punhaladas e mais punhaladas fora do carro. Sim, a Indy é um ambiente muito mais agradável para o esporte.

WUp: Mas, se você for falar apenas das corridas, sem a política, o que você prefere: a F1 ou a Indy?

MA: Acho que aqui, porque os equipamentos são muito mais similares. Se você é um bom piloto, pode mostrar seu talento. Na F1, se você estiver em um carro ruim, pode ser o próximo Ayrton Senna que, se dirigir para a Marussia, ninguém vai nem saber que você tem o talento.
(Foto: Pascal Rondeau/Getty Images)


“O que me incomoda é Indianápolis, sinto que deveria ter vencido lá várias vezes”
WUp: No momento, a Indy vive um momento político complicado e houve uma mudança no comando da categoria. Como você vê a saída de Randy Bernard e a chegada de Mark Miles?

MA: Estou feliz com o rumo em que as coisas estão caminhando. Acho que Mark Miles, que entrou agora, está fazendo um trabalho muito bom. Gosto bastante dele. O problema com Randy é que ele se tornou mais importante que a corrida na pista. Não importa quando isso acontece, está tudo errado. Isso não tem de acontecer. Ele querer ser mais importante ao postar um tweet... Se você se lembrar, depois de Indianápolis, aquilo foi se colocar à frente do campeonato, e isso não ajuda. Estou feliz com o que está acontecendo aqui. Ainda há alguns pontos incertos, mas, nos bastidores, Miles está trabalhando bastante e espero que fiquemos felizes com o que ele fizer.

WUp: Bernard deixou algumas mudanças para esse ano, como as rodadas duplas e as largadas paradas, que são uma tentativa de a Indy recuperar popularidade. Como você as enxerga?

MA: Pessoalmente, não me empolgo com elas. Não estou feliz com as dobradinhas, não acho que elas são uma coisa boa e não fico muito empolgado com as largadas paradas, pois a nossa tradição é de largadas lançadas. Acho que essa é a receita do desastre.
 
WUp: Qual o maior sucesso e o pior momento de sua carreira?

MA: Meu maior sucesso... foi vencer o campeonato em 1991. E vencer tantas corridas quanto venci. Eu me aposentei como o terceiro de todos os tempos [em vitórias], foi legal. A pior experiência foi, obviamente, a F1. Eu aprendi muito, então, pela experiência e por aprender sobre a vida e as coisas, foi bom, mas, quase arruinou a minha carreira.

WUp: Você nunca venceu as 500 Milhas...

MA: É, esse foi um dos meus piores momentos também. Foi em 1992, quando liderei toda a corrida e quebrei faltando dez voltas para o fim. Meu irmão e meu pai estavam no hospital. Aquele foi um dia muito, muito, muito ruim.

WUp: O que pesa mais: não ter vencido as 500 Milhas de Indianápolis ou ter fracassado na F1?

MA: Provavelmente ter o azar que eu tive em Indianápolis, porque todos sabem que eu poderia ter vencido aquela corrida. Eu poderia ter vencido lá seis vezes, mas sempre tive algo que deu errado. Na F1, era apenas uma questão de que as coisas eram manipuladas por outras pessoas e não era sobre corridas ou algo assim. O que me incomoda é Indianápolis, sinto que deveria ter vencido lá várias vezes.
 
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