Edição 37
Abril/2013

Campeão Brasileiro de Kart. E daí?

Ser campeão brasileiro de kart é importantíssimo. Mas o troféu não basta para que um jovem talento consiga dar sequência à sua carreira nas pistas. Três campeões das principais categorias do kartismo nacional em 2012 tiveram três destinos diferentes

RENAN DO COUTO, de São Paulo
Gabriel Casagrande, Olin Galli e Gaetano di Mauro dominaram o kartismo brasileiro em 2012, mas isso não significou, necessariamente, um pulo direto (ou fácil) para as categorias de fórmula. (Fotos: Divulgação)
abriel Casagrande, Olin Galli, Gaetano di Mauro. Três jovens promessas que, em 2012, se sagraram campeões brasileiros de kart nas três principais categorias da modalidade no Brasil. Todos alcançaram o ápice nesta clássica escola para o automobilismo. Porém, a evolução no ‘mercado de trabalho’ não é nada simples. O título no campeonato de kart mais importante do país, embora importantíssimo para o currículo de qualquer piloto, não contribuiu tanto assim para os próximos passos das carreiras destes jovens. Afinal, ter um título deste porte abre mesmo portas?

Com pouca divulgação além do meio do kartismo, o título brasileiro acaba se tornando uma estatística a mais e não ajuda muito na hora da migração para as categorias de fórmula — ainda mais diante da falta de boas alternativas para isso no automobilismo nacional — ou então, na captação de novos patrocínios, cruciais para o prosseguimento da carreira em um esporte tão custoso.

A Warm Up conversou com Casagrande, Galli e Di Mauro para saber o que mudou em suas vidas e em suas carreiras desde os títulos conquistados em julho do ano passado e quais são as perspectivas de cada um para 2013.
“Dá para fazer carreira no Brasil, mas só no turismo.
Fórmulas não tem futuro”
Embora tenha feito uma temporada promissora na Europa, Gabriel foi mais um a deixar para trás o sonho da F1. (Foto: Divulgação)

Gabriel Casagrande
Paranaense, 18 anos, campeão brasileiro na categoria Graduados

2012 foi o melhor ano do kartista Gabriel Casagrande. Apesar de ter se mudado para a Europa e iniciado sua carreira nos monopostos no ano passado, quando disputou o Norte Europeu de F-Renault, o paranaense continuou vindo ao Brasil para competir em provas de kart –apresentando-se melhor do que nunca.

Casagrande brigou pelas primeiras posições na categoria Graduados desde o início da temporada e, em julho, em Cascavel (PR), conquistou seu primeiro título brasileiro. Duas semanas antes, no Kartódromo Beto Carrero, ele via o título da Sudam – equivalente à Graduados, mas aberta a equipamentos estrangeiros – escapar por entre os dedos por conta de um problema no motor.

“Foi como um alívio para mim. Já tinha batido na trave umas duas ou três vezes, queria porque queria ganhar. Foi bom para mim, mas não mudou muita coisa na minha carreira”, começa Casagrande à WUp nos boxes do Kartódromo de Interlagos durante a realização do Super Kart Brasil 09. “Muda que o pessoal vem zoar, ‘aaah, olha o campeão brasileiro de kart tomando pau agora...’”, ri.

No que diz respeito a novas oportunidades, o nome de Casagrande, 18 anos desde 20 de fevereiro, ficou mais conhecido no meio do automobilismo, mas nem tanto fora dele. Em sua visão, o esporte carece de visibilidade. “Falta mais gente da mídia vir aqui”, acredita. “No kartismo, todo mundo se já conhece”. Gabriel também pensa que o interesse do público em geral pelo kartismo é pequeno, pois “os caras querem um novo Ayrton Senna e não vai ter um logo. Querem saber de quem está lá em cima. Mesmo o pessoal da GP2 e da World Series não é muito conhecido”, avalia o jovem de Pato Branco.

Além disso, o paranaense sentiu falta de iniciativas que facilitem a transição para os monopostos no Brasil. “Quando entrei na Graduados, em 2011, tinha testes de F3, descontos de F-Futuro [que não aconteceram porque a categoria deixou de existir]. 2012 não teve nada, foi meio que esquecido”, relembra, entristecido.

Culpa, também, da organização do Campeonato Brasileiro de Kart, responsabilidade da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). Na visão do paranaense, a entidade “é meio ruim nisso. Quer dinheiro, dinheiro e só”. O problema é que o status do campeonato pesa. “É o Brasileiro. Você aumenta seu nome. Tem que pagar e ir lá correr.”

Dos três jovens campeões de 2012, Casagrande é o único que tem planos definidos para competir fora do kartismo: disputará os Brasileiros de Turismo e de Marcas pela equipe Carlos Alves em 2013. “Dá para fazer carreira no Brasil, mas só no turismo. Fórmulas não tem futuro”, vaticina a revelação, sendo mais um a mudar os rumos da carreira e deixar para trás o sonho da F1, numa tendência aos jovens no automobilismo nacional.

A decisão de mudar de rumo após um início promissor nos fórmulas na Europa chega a ser surpreendente, mas é explicada com muita tranquilidade pelo piloto, que foi contra tudo e todos para decidir voltar para casa. “Segui a minha cabeça, meu coração e quis ficar aqui, perto da família e dos amigos”, conta. “Acho que não vale a pena todo o dinheiro e todo o tempo investidos lá para chegar na F1. Não vale a pena ir para lá, se ferrar um monte e não dar certo, como vários que foram não deram. Pode ser que outros pensem diferente, mas cada um tem um jeito de pensar.”

O fato de a F1 clamar cada vez mais por pilotos que carreguem consigo montanhas de dinheiro também pesou na decisão. “Por ano, entram um ou dois pilotos novos, e é muita gente querendo essas vagas. E hoje em dia, se você não tiver o dinheiro para pagar no começo, não entra. Só se for excepcionalmente bom, e eu acho que o Ayrton Senna não vai nascer de novo”, diz.

Agora com os olhos no turismo, Casagrande não descarta voltar para a Europa ou ir para os EUA, mas só quando estiver “mais adulto, com a vida já formada”. De imediato, os planos são terminar a faculdade de Engenharia de Produção, que iniciará em 2013, e se firmar no automobilismo brasileiro para chegar à Stock Car.
“Falta investimento, falta televisão, falta tudo”

Olin Galli
Carioca, 16 anos, campeão brasileiro na categoria Sudam

Apesar de muito jovem, Olin Galli já é tricampeão brasileiro de kart. O carioca comemorou títulos nacionais nos últimos três anos: foi campeão na categoria Júnior, em 2010, em Volta Redonda; na Sudam Júnior, em 2011, em Belo Horizonte; e na Sudam, em 2012, no Beto Carrero. Mas foi essa última conquista que o firmou entre os principais kartistas do Brasil, já que na pista estavam nomes consagrados como André Nicastro, Sérgio Jimenez e Felipe Guimarães.

O título brasileiro numa categoria top implica, obrigatoriamente, em ”mais responsabilidade”, pensa o carioca, fanático pelo Fluminense e pela Portela, cores que costuma ostentar pelos kartódromos. “Ganhar de Jimenez, Nicastro, Guimarães... é sensacional. Eu, quando era Cadete, eu os via brigando na Graduados. Agora estou ganhando deles e fico muito feliz por isso”, comemora.

Porém, quando perguntado pela WUp se o título mudou algo em termos de crescimento na carreira, Galli responde de maneira direta que “infelizmente, não”. “Falta investimento, falta televisão, falta tudo. Tem que fazer uma promoção, chamar televisão, jornal, chamar tudo para divulgar o kart, para dar patrocínio”, comenta Olin, lamentando a situação atual do kartismo brasileiro.

Essa questão do patrocínio afeta diretamente as chances que o garoto tem de migrar para o automobilismo. Até o momento, andar de fórmula não passa de uma miragem distante no horizonte do seu pensamento. “O carro é muito caro. O kart também é, mas dá para levar. Para ir para o carro, tem que arrumar patrocínio. Se não arrumar patrocínio forte ou a Lei de Incentivo ao Esporte, não dá. Sem patrocínio, vou ficar no kart até pintar alguma coisa.”

E se o lado financeiro é um empecilho, Galli não considera ideal o caminho que tem para tocar sua carreira adiante nos monopostos no Brasil. Ele pensa que falta uma categoria intermediária entre o kart e a F3, que já “está muito fraca”. “Deveria ter uma F-Renault forte, barata, igual era a F-Futuro. Só que ela acabou. Tendo isso, melhora a situação”, encerra.

Em 2013, Galli continuará sendo figura constante nas principais competições do kart no país: os campeonatos nacionais, as etapas (e quem sabe a final) da Seletiva de Kart Petrobras e no Super Kart Brasil.
Galli vai seguir no kart em 2013. "O carro é muito caro. Sem patrocínio, vou continuar no kart até pintar alguma coisa", justifica. (Foto: Divulgação)
“O que mais mudou foi que várias pessoas conheceram meu nome”
Além da F3 Sul-americana, Di Mauro correrá de kart na Itália e defenderá o título do Brasileiro na Shifter. (Foto: Bruno Terena)

Gaetano di Mauro
Paulista, 15 anos, campeão brasileiro na categoria Shifter

Comendo pelas beiradas, Gaetano di Mauro despontou e conquistou o campeonato brasileiro na categoria Shifter, uma das mais importantes no kartismo. Após competir nos karts com marcha na Shifter Júnior, Di Mauro subiu para a elite da modalidade em 2012, ano de seu 15º aniversário. Logo de cara foi capaz de bater os consagrados irmãos Danilo e Dennis Dirani, que sempre dominaram a categoria. Sem dúvidas, surpreendeu.

Mas Di Mauro, apesar da pouca idade, já se considera um kartista experiente. “Ando desde pequenininho, desde os quatro anos”, diz o piloto à WUp. Desde que se envolveu com o esporte, quando mal sabia ler e escrever, Gaetano começou a observar e estudar o comportamento de pilotos que considera referência, como os Dirani e André Nicastro.

“Sempre prestei bastante atenção neles, como eles guiavam, como poupavam pneu. Quando não estava andando, ia para a pista para assistir. Sempre me motivei com eles na pista”, conta, ainda com um jeito de menino, em entrevista feita por Skype, com o piloto prestes a testar na Itália. “Quando vi que era a hora de utilizar tudo aquilo que eu os via fazendo, deu tudo certo e, graças a Deus, fui campeão.”

O título do Brasileiro de Shifter, porém, não tira seus pés do chão. “Foi emocionante, mas é normal, né? Fiz um trabalho certinho e consegui um título que eu queria”. Uma conquista como essa acrescenta, mas não muda tudo. É preciso continuar trabalhando para evoluir. “Abre portas, dá visibilidade, mas é um título comum. Vou continuar aprendendo com eles porque cada corrida é uma experiência nova, eles têm uma coisa a mais para passar para mim e eu vou aprendendo.”

Gaetano também acredita que seu status mudou após a vitória no Kartódromo Beto Carrero, em julho do ano passado. Principalmente no reconhecimento: “Várias pessoas conheceram meu nome, o campeão brasileiro.”

Ao contrário de Galli e Casagrande, contudo, Di Mauro ainda não estava pensando na mudança para os carros no início deste ano. Não em curto prazo, mas a situação mudou quando ele teve a oportunidade de disputar a F3 Sul-Americana. O jovem andou na etapa de abertura, em Interlagos, pela equipe RR, e planeja correr nas demais rodadas duplas do campeonato, mas isso ainda não está definido. Afinal, tudo depende dos custos e do patrocínio que possa bancar essa empreitada.

Mas as competições de kart não deixaram a agenda do campeão brasileiro em 2013. Gaetano se mudou para a Itália para disputar as principais competições do Velho Mundo nos karts com marcha. Lá, o status de campeão brasileiro ajudou, admite, mas não foi o principal. “O teste que fiz aqui ajudou mais”, conta.

Ir para a Europa, a propósito, é o que Gaetano pensa ser o melhor para qualquer piloto de sua faixa etária. “Estou aqui abrindo a minha cabeça para melhorar. Esse é o caminho. Se o piloto brasileiro quiser aprender, acho que é o caminho. Aqui é onde estão os olheiros, onde se aprende, onde tem muito cara bom. O grid inteiro é bom. Ele não vai pilotar com cara que está começando. Aqui são profissionais. Todos andam bem. No Brasil, tem cinco caras bons. Aqui tem 20, 25. É bem difícil mesmo e eles trabalham muito”, analisa.

Residindo na cidade italiana de Desenzano del Garza, Di Mauro fará provas válidas pelo WSK Master, WSK Euro, Winter Cup, Trofeo Margutti e o Mundial de KZ defendendo o time oficial da fabricante de chassis Energy. Em alguns eventos deverá enfrentar, na pista, ninguém menos que Michael Schumacher. Quando o calendário permitir, Gaetano retornará ao Brasil para algumas corridas, incluindo a própria F3 e o Brasileiro de Kart, para defender a coroa de campeão na categoria Shifter.
 

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